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A adaptação evolutiva dos empregadores na pandemia

A adaptação evolutiva dos empregadores na pandemia

FONTE: ESTADÃO

A adaptação evolutiva dos empregadores na pandemia

03 de agosto de 2021 

Rodrigo Shiromoto, Advogado, Sócio de ASBZ Advogados. Especialista em Direito do Trabalho e Membro do Conselho Fiscal da Human Rights Watch Brasil

Erroneamente, muitos atribuem a Darwin o racional onde o mais forte e mais inteligente predomina e sobrevive. Na realidade, o naturalista e biólogo sempre conferiu a evolução das espécies àqueles que melhor se adaptam às mudanças e ao ambiente para sobreviver e prosperar.

Traçando um breve paralelo entre a Teoria da Evolução e o atual momento vivido pelos empregadores em nosso país, muito se espera das lideranças para a construção de ambientes laborais capazes de acomodar interesses individuais e coletivos de seus colaboradores. Adaptar-se, assim, a uma nova realidade pós pandemia é atualmente o maior desafio a ser enfrentado pelas empresas.

Alguns passos iniciais já foram dados no ano passado. A introdução imperativa dos trabalhos remotos obrigou os empregadores, sem qualquer alternativa disponível, a ignorar os receios pretéritos que sempre se fizeram presentes nas discussões sobre o home office. Acidentes laborais, horas extras, benefícios, ajudas de custos, entre outros, que impediam a adoção de tal modelagem, foram abraçados praticamente da noite para o dia.

Um primeiro marco na adaptação surgiu da necessidade de manter as engrenagens funcionando em momentos de restrições e lockdowns. Junto a esse primeiro passo, uma corrida por outras adaptações mecânicas lideraram os trabalhos conduzidos pelos Departamentos de RH e Jurídico das empresas: alterações contratuais, fornecimento de equipamentos de trabalho, pagamentos de ajudas de custo, suspensões de benefícios, dentre outros.

Quando tudo parecia mais ou menos “azeitado” inclusive com declarações de diversas empresas sobre a adoção de um regime integralmente telepresencial, ou, ao menos híbrido, surge, já no segundo ano de restrições um novo desafio: a perda da saúde mental e intelectual dos colaboradores.

Pesquisas que medem o clima laboral demonstram, de forma simples e direta, que a ansiedade, a depressão e o burnout se instalaram definitivamente nas empresas em 2021, forçando-as a repensar, ou, ao menos, novamente se adaptar à demanda. Garantir financeiramente a continuidade das operações em residência, ou retirar os colaboradores de uma rotina de trânsito caótico nos grandes centros deixou de ser o foco de atenção. O segundo passo adaptativo vem assim se voltando para o bem-estar psíquico. Nunca se buscou tanto acompanhamento psicológico online, nunca se discutiu tanto sobre benefícios flexíveis voltados para a saúde dos colaboradores, e nunca o tema afastamento por doenças profissionais se mostrou tão atual.

Grosso modo, assim como o ser humano não é adaptado a viver fora da atmosfera terrestre, vis a vis os problemas de saúde demonstrados por astronautas no retorno de suas missões, os colaboradores, talvez, ainda não estejam prontos para uma rotina fora de um ambiente laborativo tradicional. Pensando no ser humano como um ser social, cujo raciocínio possibilita o convívio coletivo e consequentemente a sua evolução, pautar as relações de trabalho no isolamento e em interações através de aplicativos pode parecer uma adaptação involutiva.

Sem prejuízo, na balança dos prós e contras, o trabalho em home office ou teletrabalho vem se mostrando no curto prazo uma realidade mais atrativa para colaboradores e empregadores. Economia financeira, ganho de tempo e produtividade e maior flexibilidade de agenda se mostram inegavelmente interessantes. No entanto, uma terceira onda adaptativa, ainda tímida, mas já mapeada, assombra as lideranças com discussões sobre a acomodação dos riscos assumidos em cada etapa evolutiva. Forçados a se adaptar às pressas, “rebarbas” judiciais e administrativas muito provavelmente surgirão como consequências da pandemia. No momento em que alguma normalidade se instalar no cotidiano dos colaboradores, direitos trabalhistas e sequelas psicológicas decorrentes do novo normal serão esquecidas ou perdoadas? Quer parecer que não, se considerada a tradição protetiva do judiciário trabalhista e o racional oportunista e litigante enraizado na cultura nacional.

Parafraseando, ou melhor, adaptando as palavras de Fernando Pessoa, “adaptar é preciso”, com a consciência, porém, de que qualquer adequação não traz a garantia de isenção de riscos nas tomadas de decisão. Pelo contrário. Momentos incertos demandam posturas também incertas, bastando, minimamente, a clareza acerca de uma margem de acerto bastante tímida como consequência do inesperado. Adaptemo-nos e façamos o nosso melhor.

https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/a-adaptacao-evolutiva-dos-empregadores-na-pandemia/

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