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Análise: O principal problema da Petrobras, na visão do novo presidente da empresa

Análise: O principal problema da Petrobras, na visão do novo presidente da empresa

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Análise: O principal problema da Petrobras, na visão do novo presidente da empresa

José Mauro Coelho quis agradar o mercado ao mesmo tempo em que se mostrou atento às exigências do do presidente Jair Bolsonaro

Por Gabriela Ruddy, Valor — Rio

 Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

15/04/2022

Em discurso de posse na tarde da última quinta-feira, o novo presidente da Petrobras, o químico José Mauro Coelho, quis agradar o mercado ao indicar a continuidade da estratégia da empresa ao mesmo tempo em que se mostrou atento às exigências do governo federal, que, na figura do presidente Jair Bolsonaro, vinha reclamando dos aumentos de preços de combustíveis.

Para tanto, Coelho destacou que pretende melhorar a comunicação da empresa com a sociedade e os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. “Esta será uma gestão que valorizará o aperfeiçoamento da comunicação, principalmente externa (...) Será uma empresa que vai trabalhar um pouco mais para fora”, afirmou o novo presidente.

Com essa breve inserção no primeiro discurso como CEO, Coelho se mostrou alinhado às falas do presidente Jair Bolsonaro, que nos últimos dias afirmou que a decisão de trocar o comando da petroleira buscava “dar mais transparência” à política de preços de combustíveis da empresa. “A Petrobras não usa o seu marketing, ela não fala”, criticou o presidente da República na última semana.

No entanto, parece simples atribuir a questão de “comunicação” à insatisfação da população com o aumento de preços de combustíveis. Especialistas elogiam a busca da empresa por maior clareza a respeito da política de preços, mas ressaltam que os problemas da estatal vão muito além.

Para o advogado Guilherme Amorim, sócio de Rubens Naves Santos Jr. Advogados, o que falta, de fato, é a definição de qual é o papel que o governo quer que a estatal tenha efetivamente. “É importante reforçar a comunicação, mas vai além disso. É preciso que a União deixe claro qual é o planejamento do acionista controlador para a companhia a médio e longo prazos. Está faltando planejamento estratégico”, afirma Amorim.

Bolsonaro optou por trocar o CEO da Petrobras, o general da reserva Joaquim Silva e Luna, em março, depois dos aumentos de preços de combustíveis. Atualmente, a companhia pratica preços alinhados ao mercado internacional, que tiveram um forte aumento nos últimos meses devido à guerra na Ucrânia.

Coelho indicou ontem que vai continuar seguindo a mesma política. “A prática de preços de mercado é condição necessária para a criação de um ambiente de negócios competitivo, para a atração de novos investimentos, para a expansão da infraestrutura do país e para a garantia do abastecimento”, afirmou.

Ele também reforçou a defesa da continuação da venda de refinarias da estatal, como já havia feito entre abril de 2020 e outubro de 2021, período em que foi secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), quando se tornou próximo do ministro Bento Albuquerque. “Tal cenário leva ao aumento da concorrência , com benefícios para o consumidor brasileiro”, defendeu.

No mais, o executivo apontou que a empresa vai continuar seguindo a mesma estratégia que adota desde 2017: buscar manter o endividamento controlado e focar investimentos na exploração e produção em áreas de águas profundas e ultra-profundas, com a venda dos ativos de menos interesse da companhia. Ele indicou, inclusive, que a empresa não deve realizar grandes mudanças no plano estratégico e elogiou, mais de uma vez, o atual plano em andamento, anunciado pelo seu antecessor ao final do ano passado, compreendendo o período de 2022 a 2026.

Ao longo do último ano, inclusive durante a gestão do próprio Silva e Luna, a companhia já vinha apostando na melhoria da comunicação com a população, com a publicação de vídeos nas redes sociais nas quais explicava a composição de preços dos produtos.

O esforço para o esclarecimento, apesar de bem-vindo, parece ter tido impacto reduzido na insatisfação da população e do governo com o aumento de preços, dado o retorno do debate sobre o tema. No ano passado, a entrada de Silva e Luna na empresa havia se dado em contexto similar ao de Coelho. Em fevereiro de 2021, desagradado com os impactos políticos e sociais da alta de preços na gestão de Roberto Castello Branco à frente da estatal, Bolsonaro quis trocar o comando da companhia e indicou o general da reserva para o cargo que viria a ocupar por apenas um ano.

Em entrevista ao Valor esta semana, o conselheiro representante dos minoritários reeleito, Marcelo Mesquita, disse que a companhia, de fato, tem buscado explicar à sociedade como funcionam os preços. Para Mesquita, o que falta, neste momento, é maior responsabilidade no discurso de políticos sobre o tema.

"Acho que os políticos têm que fazer um ‘mea culpa’ e têm que ter uma responsabilidade maior no nível do debate. Tem muita gente que sabe muito bem tudo isso e mesmo assim se aproveita dessa questão para tentar ludibriar o eleitor mais incauto, menos conhecedor da realidade, o que é de uma desonestidade intelectual atroz e triste”, afirmou.

A entrada de Coelho na Petrobras foi marcada por turbulências: ele foi indicado pelo governo para o cargo apenas na semana passada, com a desistência do primeiro convidado, o economista Adriano Pires. Um dos pré-requisitos para que fosse confirmado como presidente era a eleição para uma vaga no conselho de administração da estatal.

Em uma Assembleia Geral Ordinária (AGO) marcada por erros na contagem de votos e que durou mais de nove horas, Coelho foi, enfim, eleito para o conselho. Poucas horas depois do fim da assembleia, na manhã de quinta-feira, o colegiado de 11 membros se reuniu para elegê-lo ao mais alto cargo executivo da empresa. Com apenas dois votos contrários, a Petrobras, enfim, pôde confirmar que realizaria a cerimônia de posse do novo presidente na quinta à tarde.

Emocionado, Coelho assumiu então na tarde de ontem, pela primeira vez na vida, a presidência de uma empresa. Na maior estatal do país, no entanto, há chances de que ele permaneça por pouco mais de nove meses, dado que, com a eleição presidencial ao fim deste ano, novas mudanças na gestão da companhia podem ocorrer a partir de 2023.

Antes da Petrobras, o executivo fez carreira em órgãos estatais, tendo ficado 13 anos na Empresa de Pesquisa Energética (EPE), dois anos no MME e 11 meses na presidência do conselho da estatal PPSA. Ao atribuir questões complexas a uma mera “falha de comunicação”, Coelho parece seguir alinhado ao governo, ecoando o discurso de apoiadores do presidente da República que atribuem a simples questões de falta de clareza na linguagem os problemas da gestão do governo na empresa.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/04/15/analise-o-principal-problema-da-petrobras-na-visao-do-novo-presidente-da-empresa.ghtml

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