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Após afastar Esteves, BTG Pactual estuda demissões

Após afastar Esteves, BTG Pactual estuda demissões

FONTE: O GLOBO

 

Após afastar Esteves, BTG Pactual estuda demissões

Mas mudança no controle não impedirá que banco responda por atos considerados ilícitos, caso sejam comprovados

POR ANA PAULA RIBEIRO, BRUNO ROSA E RENNAN SETTI


Risco à frente. André Esteves: sua saída do controle do BTG não impedirá que o banco responda a um processo - Parceiro / Claudio Belli/Valor/19-6-2015

 

SÃO PAULO e RIO - Em mais uma tentativa de minimizar os riscos à imagem da instituição financeira, o BTG Pactual anunciou ontem um acordo de acionistas que afasta André Esteves do controle do banco por ele criado em 2008. A solução envolve uma troca de ações em que o banqueiro irá entregar os seus papéis ordinários (ON, aqueles que dão o direito ao controle de uma companhia) a um grupo de sete executivos, o chamado Top Seven, recebendo em troca um número igual de papéis preferenciais (PN). De acordo com uma fonte, que pediu para não ser identificada, o Top Seven passou o dia ontem reunido para traçar as estratégias do banco, que vão incluir uma reestruturação, com venda de ativos e demissões. Especialistas, no entanto, ressaltam que a mudança no controle societário não impedirá que o banco responda por atos considerados ilícitos na gestão de Esteves, caso estes sejam comprovados.

A reestruturação, que depende de aval do Banco Central (BC), irá ocorrer no BTG Pactual Holding, que detém 70,97% do capital total da instituição financeira. No acordo original, Esteves possui 58,78% das ações ordinárias dessa holding e a golden share, que na prática é o poder de decidir o que a companhia vai fazer. Marcelo Kalim e Roberto Sallouti têm uma fatia de 7,95% das ações de controle, e os outros 25,32% das ONs estão divididos entre diversos sócios, que também têm a maior parte das PNs (93,05%). Com o acordo anunciado ontem, Esteves, preso no último dia 25 em mais uma fase da Operação Lava-Jato irá trocar as ONs pelas PNs, ficando apenas como um grande acionista, mas sem poder de decisão.

 
Será criada uma nova holding, e o Top Seven — que, além de Kalim e Sallouti, inclui Pérsio Arida, Antonio Carlos Canto Porto Filho, James Marcos de Oliveira, Renato Monteiro dos Santos e Guilherme da Costa Paes — ficará com o controle da BTG Pactual Holding e, consequentemente, do banco. Eles decidirão os rumos da instituição em votação por maioria simples. Todos os votos terão o mesmo peso, independentemente da participação acionária de cada um.
 

Apesar da mudança, as ações do banco não reagiram. João Augusto Salles, analista da Lopes & Filho Consultoria, vê como positiva a decisão, uma vez que reduz os riscos para a reputação do BTG.

— O problema do banco é de risco reputacional, e manter Esteves poderia ampliar os saques. O que os controladores primeiro fizeram foi tentar blindar a instituição com a mudança na administração. Como isso não surgiu efeito, a saída foi criar essa nova sociedade — afirmou.

De fato, esse risco de reputação já está reduzindo os negócios do banco. Além dos saques dos fundos, a tesouraria de um banco internacional afirmou que está menor a demanda do BTG Pactual por operações com derivativos no exterior, um dos fortes da instituição. A interpretação é que os executivos estão tentando colocar ordem na casa e, ao mesmo tempo, os clientes estão receosos em operar por meio do BTG. O executivo dessa tesouraria afirmou que as linhas para o banco de Esteves não foram cortadas, mas ressaltou que, ao menor sinal de envolvimento da instituição com atos ilícitos, a área de controle pedirá para suspender as operações com o BTG.

Os sócios, agora, buscam montar um plano de reestruturação. Segundo fontes, já estariam ocorrendo conversas sobre a venda de ativos, inclusive com o interesse por parte de estrangeiros. Ontem o BTG confirmou a venda, por R$ 2,38 bilhões, de sua fatia na Rede D’Or para o fundo soberano GIC, de Cingapura.

— Há conversas em andamento com o Itaú. Com o Bradesco, elas envolvem a venda da área de asset. Há ainda a venda de algumas participações, que serão feitas com cuidado. Na maior parte dos casos, os acionistas das companhias têm direito de preferência — disse uma fonte, que não quis ser identificada. — Agora, sem o André Esteves como controlador e com o fim da golden share, são os sete sócios que vão tomar todas as decisões. E essas decisões serão tomadas pela maioria simples dos votos.

Essa fonte destacou ainda que a principal preocupação é com a perda dos clientes institucionais do exterior. Alguns fundos já estão em processo de retirada de recursos, e outros já iniciaram a conversa com o BTG para entender os próximos passos da instituição.

— A questão central é que o André era o grande nome do banco. Sem isso, muito se perde. A reestruturação inclui ainda demissões, com certeza. O banco sempre foi muito voltado para o corte de custos. Agora, vamos levar isso a cabo. A ideia será um fazendo o trabalho de três — disse essa fonte, destacando que ainda não há um número envolvendo as demissões. 

Atualmente, o banco conta com um total de 5.446 funcionários nos 20 países onde atua.

Além disso, instituições internacionais entraram em contato, nos últimos dias, com escritórios especializados no Brasil para prospectar a compra da fatia do BTG na BR Properties, afirmou uma fonte a par das sondagens. O movimento começou logo após a prisão de Esteves. O banco tem 36% da BR Properties, especializada em ativos imobiliários.

— Existe um interesse em conhecer o ativo, mas as tratativas estão em estágio inicial —disse a fonte, sem revelar que empresas estão envolvidas.

Na segunda-feira, a corretora do BTG intermediou a venda de um bloco de 21,8 milhões de ações, ou R$ 223,6 milhões, em ações da BR Properties na BM&FBovespa. Não foram revelados nomes de comprador ou vendedor, mas analistas de mercado apontam o BTG como o provável vendedor.

Segundo essa fonte, o BTG também quer se desfazer de sua participação da Eneva, antiga MPX. O banco é o maior acionista da empresa, com 49,57%.

— No momento a empresa está em recuperação judicial, não há abertura de mercado para se desfazer desse ativo. Mas o que sabemos é que o plano do banco é reorganizar as atividades da empresa para, aí sim, vendê-la — acrescentou.

E duas fontes disseram que o BTG negocia a venda de pelo menos uma parte de suas operações ao Bradesco, cujo diretor executivo, Luiz Carlos Trabuco, negou recentemente qualquer interesse. Uma das fontes afirmou que interessa ao Planalto uma compra de fatia por parte do Bradesco, banco próximo ao governo Dilma Rousseff.

PERDA DE VALOR DE MERCADO CHEGA A R$ 10 BI

Outra questão que pode afetar o futuro do BTG é que, mesmo com Esteves fora, o banco não ficará isento de responder legalmente por eventuais atos ilegais praticados no passado. Segundo o criminalista Alberto Toron, a pessoa jurídica também responde por atos ilícitos:

— A saída de Esteves do controle não retira a responsabilidade do banco e de outros diretores. No direito penal, a responsabilidade é pessoal, subjetiva e intransferível. Ele saiu do controle, mas, se ficar provado que teve alguma conduta ilícita no banco, Esteves irá responder criminalmente, e o banco responderá pelos aspectos cíveis. A lei anticorrupção tem essa mesma interpretação.

O advogado Ernesto Tzirulnik também avalia que essa mudança societária não blinda o banco de possíveis processos no âmbito da lei anticorrupção, mas elogiou a decisão do BTG: 

— É uma medida saudável, porque reduz a exposição da sociedade em alguns atos legais. Mas certamente vai haver uma discussão da abrangência daqueles atos praticados quando Esteves ainda era o controlador.

Para um profissional do mercado que não quis ser identificado, a reestruturação não basta para segurar o valor das ações. Ontem, as agências de classificação Moody’s e Standard & Poor’s rebaixaram a nota do BTG. Seus papéis caíram 1,48%, a R$ 20. Desde o dia 25, a queda é de 32,25%, o equivalente a R$ 10,22 bilhões em valor de mercado.

— É uma questão de imagem que não é solucionada a curto prazo — afirmou ele.

http://oglobo.globo.com/economia/apos-afastar-esteves-btg-pactual-estuda-demissoes-18205476

 

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