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Apps e testes dizem quem pode retornar

Apps e testes dizem quem pode retornar

FONTE: VALOR ECONÔMICO


Apps e testes dizem quem pode retornar

Companhias monitoram o estado de saúde dos funcionários para a volta ao trabalho presencial

Por Stela Campos e Barbara Bigarelli — De São Paulo

22/06/2020

Enquanto fazem planos de uma volta gradual aos escritórios e fábricas, empresas investem em testes e aplicativos para checar a saúde dos funcionários e assim poder dizer quem está apto a retornar. Com isso, esperam minimizar os riscos de contaminação pela covid 19 no ambiente de trabalho.

A Neoenergia, empresa que pertence ao grupo espanhol Iberdrola, por exemplo, já está estruturando um plano para que 5 mil dos 12 mil funcionários em 18 estados, que estavam em regime de home office, possam voltar ao trabalho presencial. “Estamos pensando em uma volta gradual para deixar o colaborador mais seguro”, explica Régia Barbosa, superintendente de desenvolvimento organizacional. A maior preocupação nessa volta, segundo ela, é como acompanhar o estado de saúde dos funcionários.

Para ter acesso a mais informações sobre eles, a empresa iniciou este mês um plano piloto com a disponibilização de um aplicativo para 800 empregados da Cosern, concessionária de energia do Rio Grande do Norte. Desenvolvido pela aceleradora digital Neoris, o “HealthCheck”, que pode ser instalado no celular ou computador, faz um check-in semanal sobre a saúde do trabalhadores. “São cinco perguntas muito simples, se pessoa sente os sintomas, se teve contato com alguém que contraiu o vírus, como está a família, se já fez o teste, como está seu isolamento”, explica Régia. Ela diz que essas informações vão ajudar os gestores de área a coordenar a volta ao trabalho presencial. Até o momento, diz, 100% dos funcionários do projeto piloto aderiram ao app. A iniciativa, segundo Régia, foi da subsidiária brasileira, porque a gestão da pandemia é local.

Na Baxter, que possui 1,2 mil funcionários no Brasil e 50 mil no mundo em 100 países, segue um plano global, com 40 itens a serem analisados por cada operação antes de retornar ao escritório. Envolvem desde treinamento de funcionários, até reorganização do escritório, desinfecção profunda, plano para ocupação máxima e fluxo de tráfego único. “Até agora, só o escritório na China foi aprovado para abrir”, diz Antonio Nasser, presidente da Baxter Brasil. Os funcionários de lá acessam um app antes de ir e respondem a perguntas envolvendo seus sintomas atuais. Obtêm então uma resposta se podem ir trabalhar ou se deveriam contatar as equipes internas de saúde.

Esse app já é usado pelos funcionários no Brasil - sendo que 300 deles estão remotos. A empresa também criou a figura do ‘flu coordinator’, profissionais que receberão os funcionários no trabalho para avaliar sintomas e verificar a temperatura. No Brasil, alguns deles já estão trabalhando na função que deve somar 20 pessoas.

No Sidia Instituto de Ciência e Tecnologia de Manaus, centro de pesquisa privado de inovação sem fins lucrativos, que reúne 900 profissionais, o desenvolvimento de um software para avaliar a saúde das pessoas na pandemia surgiu para monitorar a saúde dos próprios funcionários. Mesmo com quase 100% deles trabalhando em regime de home office. “A área de saúde cobrava que os gestores perguntassem todos os dias para as pessoas como elas estavam e achamos que isso era entrar muito na privacidade deles. Vimos também a necessidade de ter informações mais precisas”, diz Paulo Melo, gerente sênior de novos negócios.

Foi assim que surgiu a ideia do aplicativo Infosaúde, que indica as unidades públicas de saúde mais próximas a partir da geolocalização, traz dicas de prevenção, serviços e notificações até um questionário com 13 perguntas, que devem ser respondidas duas vezes ao dia. Nos dois meses em que os 900 funcionários passaram a usar o questionário, 94% não apresentaram sintomas, 2,9% tinham algum sintoma e 3,8% responderam mais “sins” e, por isso, foram contactados pela área de saúde.

Melo diz que há uma preocupação com a autenticação e criptografia do usuário na transmissão de dados armazenados na nuvem, aos quais apenas a equipe médica da Sidia tem acesso. A inspiração para o aplicativo veio de empresas clientes da Coreia do Sul, e a nova ferramenta vai funcionar como um passaporte de retorno ao trabalho, ainda sem data para acontecer. “Vai dizer se a pessoa tem sinal verde, amarelo ou vermelho para voltar”, diz.

A Mercer Marsh Benefícios também está lançando um aplicativo, o MMBem-Estar, cujo objetivo é acompanhar a saúde dos funcionários em tempo real. O app pode mapear os profissionais que sejam ou tenham familiares em grupos de risco e os que já tiveram um histórico de contaminação por covid-19. “Ele pode ser vinculado aos programas de gestão de saúde e qualidade de vida da empresa.

A ideia de lançar o aplicativo surgiu a partir de uma pesquisa com 100 empresas multinacionais, que empregam 1000 funcionários. O levantamento mostrou que 52% dos funcionários desejavam estar em empresas que disponibilizassem aplicativos ou plataformas digitais que os ajudasse a encontrar médicos, agendar consultas e gerenciar dados a saúde.

Para o advogado trabalhista Aloísio Lima, sócio do escritório Lefosse Advogados, o uso de aplicativos para monitorar a saúde dos funcionários não fere direitos previstos na Constituição Federal, desde que estes não sofram exposições desnecessárias. “Num caso como o da pandemia onde o bem-social é importante, os aplicativos podem ser usados mas se preservarem a intimidade da pessoa”, diz. É essencial, segundo ele, que esteja claro para o funcionário como esses dados vão ser manipulados, por quanto tempo, quem terá acesso e qual a finalidade. “Campanhas de comunicação internas devem ser transparentes e a adesão precisa ser voluntária.”

Paulo Lilla, advogado da área de tecnologia, proteção de dados e propriedade intelectual do Lefosse, diz que os primeiros aplicativos para monitorar a saúde dos funcionários surgiram na Europa, no início da pandemia. Lá, segundo Lilla, já existem protocolos para a utilização. O monitoramento por geolocalização em tempo real é questionado e as melhores práticas indicam a tecnologia Bluetooth como menos invasiva. “Com ela, a pessoa baixa o app e o Bluetooth só capta o sinal de uma pessoa que esteja a dois metros de distância e que também tenha o app. Quando você descobre que tem covid e notifica o app, ele notifica todo mundo com quem você teve contato.”

Há também uma leva de companhias que está investindo em testes da covid-19 para direcionar quem pode ou não deve trabalhar presencialmente. Mesmo que não de forma imediata ou de curto prazo.

A startup MaxLev, marketplace para produtos e serviços de saúde, viu um crescimento de 30% na demanda por testes de covid-19 após a reabertura de comércios em São Paulo. “Em média, estamos realizando 100 testes por dia, e muitas empresas nos procuram para testar um funcionário com sintoma ou mesmo o quadro todo”, diz Marcos Franco, diretor comercial.

Entre essas empresas está o grupo Esparta, que presta serviços em segurança, limpeza e vigilância e tem 2,2 mil funcionários. Todos foram testados desde o início da pandemia, segundo o CEO Arnaldo Vargas. Além do monitoramento da saúde, o executivo disse que pesou o lado financeiro para investir em testes. “Vimos que investiríamos cerca de R$ 150 mil em testes versus R$ 380 mil que perderíamos com o afastamento de funcionários com possíveis sintomas e com as substituições temporárias”, disse, citando que no início da pandemia esse afastamento chegou a 30% do quadro. Com os testes inicias, foi constatado que 2% tinham covid-19 e deveriam ser afastados. Nenhum dos funcionários arcou com teste, diz Vargas.

A testagem também é uma prática atual no Bradesco. Mas, segundo Glaucimar Peticov, diretora executiva, a realização não veio para direcionar um possível retorno à Cidade de Deus (SP), onde fica a sede do banco, ou às agências do país. “Faz parte de uma estratégia que tem olhado para a saúde física e mental dos funcionários”, afirma Glaucimar. Até esse momento, o Bradesco mantém as agências trabalhando com 50% do contingente e 6% presencial nos departamentos. Segundo a executiva, cerca de 20 mil funcionários já foram testados desde maio e 58 mil estão com a agenda pré-estabelecida para a realização. “Em caso positivo para covid-19, nós afastamos aquele funcionário por 14 dias, bem como toda a equipe e time que tiveram contato presencial com ele”, diz Glaucimar, afirmando que esse protocolo exige um esforço grande de repensar a organização e prontidão das equipes. O teste não é obrigatório e é custeado totalmente pelo Bradesco mas, por enquanto, o funcionário só pode realizá-lo uma vez.

O banco, segundo Glaucimar, previu a testagem de 100% do quadro e, inclusive, para uma segunda onda de covid-19. No âmbito da gestão, a executiva afirma que essa estratégia, aliada a uma plataforma de bem-estar e saúde mental, à vacinação contra H1N1 e ao treinamento da liderança para comunicar-se bem na crise, visam “tirar o pânico” que muitos funcionários possam estar sentindo na pandemia. “Hoje, o grande ponto de incumbência, na questão de pessoas, é neutralizar as emoções negativas. Mesmo porque não sabemos quando o cenário vai melhorar ou voltaremos aos escritórios”.

A testagem foi realizada em parceria com o Fleury que criou uma consultoria na pandemia para auxiliar as organizações. Até o começo da segunda quinzena de junho, 100 empresas procuraram pelo serviço, 33 fecharam e cerca de 130 mil funcionários estão sob algum cuidado ou direcionamento do grupo. “Muitos RHs têm nos procurado para entender quais protocolos são adequados para a volta ao escritório ou como podem usar os resultados dos exames para aplicação de turnos e rodízios”, diz Jeane Tsutsui, diretora executiva de negócios do grupo Fleury.

Nesse momento de planejar uma possível retomada ao escritório ou implementar ações em nome da segurança dos funcionários, a comunicação é o critério-chave, segundo Tatiana Iwai, professora do Insper. “A liderança precisa ser transparente a respeito do que está fazendo e o que está buscando mapear com testes e apps de saúde. Além de avisar como vão usar os dados colhidos”, diz. Aos gestores diretos, Tatiana avalia que é preciso deixar os funcionários à vontade para compartilhar receios e desafios pessoais que envolvem o retorno ao escritório.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2020/06/22/apps-e-testes-dizem-quem-pode-retornar.ghtml

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