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As assembleias gerais de 2022 – um ano de ajustes profundos

As assembleias gerais de 2022 – um ano de ajustes profundos

FONTE: MONITOR MERCANTIL

As assembleias gerais de 2022 – um ano de ajustes profundos

Por Leonardo Barém Leite

25 De Abril De 2022

‘Desculpas’ antes aceitas como ‘sempre foi assim’ já não convencem

A temporada brasileira de 2022 de assembleias gerais, assim como de reuniões de sócios, conforme o caso, que vai majoritariamente de janeiro a abril, está sendo bastante diferente das anteriores. Alguns pontos “comuns” já estão sendo identificados como tendências, o que nos ensina bastante sobre o atual momento corporativo.

Em grande parte, questões ainda decorrentes da pandemia de Covid-19 e seus reflexos permeiam as pautas das assembleias por questões econômicas, sociais, geopolíticas, ambientais, comportamentais e tecnológicas, como nunca se viu anteriormente. Tais pontos se somam a outros que mexem com os noticiários, as decisões de compra e de investimentos e os cenários nacional e internacional.

O mercado brasileiro está acostumado com crises, especialmente financeiras e políticas, mas talvez ainda não estivesse “tão habituado” a conviver com tantas crises simultâneas, tanto internas quanto externas, incluindo ainda questões sociais e sanitárias, pontos ligados à saúde e “acidentes climáticos”, guerras com efeitos no nosso dia a dia, crises sucessivas do petróleo, da água, da energia etc.

A própria globalização já tem sido rediscutida e “adaptada” nos últimos tempos, em função das constatações dos perigos da enorme dependência externa de países como China, Índia, Rússia e outros. Isso sem falar nas pressões por ajustes de modelos de negócios que precisam ser mais sustentáveis, e das mudanças de hábitos e de preferências da população (dos consumidores) que afetam diretamente alguns setores.

O mapa de gestão de riscos das empresas está precisando de ajustes e de aperfeiçoamentos profundos para que passem a incluir questões antes pouco lembradas, e já exigidas em alguns segmentos.

As mudanças e as tendências são tantas que boa parte do mercado está, inclusive, mudando a forma de se realizar as assembleias e as reuniões anuais de/com investidores, bem como a maneira e o formato de apresentar relatórios, especialmente os de sustentabilidade. Além disso, vemos ajustes de outras dimensões que ainda são novidades para alguns.

De um lado, a própria reunião foi ajustada, ocorrendo agora em formato majoritariamente híbrido, justamente por ser mais inclusivo e por demonstrar maior compromisso com as melhores práticas de governança corporativa, ao permitir que cada participante utilize o canal que mais atenda às suas necessidades, características e preferências, seja ele presencial ou virtual. De outro, a pauta/agenda cresceu ao incluir em quase todos os casos pontos profundos de ajustes de condutas, práticas, cultura e movimentos.

Adicionalmente, a consciência ESG está, felizmente, pautando as empresas, especialmente as que já perceberam a magnitude e a urgência dos ajustes a serem implementados.

Seja pela crescente comprovação dos efeitos das mudanças climáticas no planeta inteiro, seja pelo aumento da consciência do papel das organizações em questões socioambientais ou ainda por pressões de investidores, executivos, colaboradores, parceiros, concorrentes, clientes, ou mesmo da mídia e da sociedade em geral, grande parte das empresas percebeu que não vive e não opera no vácuo.

Essa tomada de consciência, voluntária ou não, está trazendo para a pauta corporativa questões antes consideradas externas, ou de menor importância ou urgência, que, por vezes, demandam mudanças profundas nos planos e nos movimentos das empresas.

Em muitos casos, constata-se agora que várias empresas adotavam posturas muito passivas e conformistas ao apenas aceitar as dificuldades e realidades, ou apenas seguir o mercado e as práticas tradicionais, sem questionar e sem propor mudanças e melhorias realmente efetivas, e sem se perguntar o que elas podiam fazer para melhorar a realidade e superar as dificuldades.

No aspecto de consciência ambiental, assim como no tocante à inclusão, muitas empresas estavam um tanto acomodadas ao seguir meramente a legislação, a certificação e/ou o que se praticava em seus mercados, segmentos e regiões, sem buscar transformações.

Felizmente, em grande parte esse cenário está mudando, melhorando e evoluindo, como já se observa em várias empresas, especialmente nas que perceberam que esses movimentos são positivos e as estão ajudando a melhorar

Organizações mais maduras e efetivamente preocupadas com a sustentabilidade plena já perceberam que sem ajustes de rota, por vezes profundos, as melhorias não virão, o que levará não apenas a crises de imagem e de reputação, como também a perdas de investidores, colaboradores, clientes e parceiros.

“Desculpas” antes aceitas como “sempre foi assim”, “o mercado todo age assim” ou “essas questões são terceirizadas”, já não convencem e não são aceitas, nem internamente e nem pela sociedade, demandando uma nova postura e novas atitudes concretas.

Em muitos casos, as metas puramente financeiras já estão sendo ajustadas para que conversem com os ajustes necessários para a inclusão do fator ESG em seus planejamentos estratégicos. Resultados financeiros já são contextualizados para que se considere não apenas os números, mas o “como”…

Além disso, muitos conselhos e diretorias precisarão ser igualmente ajustados para a nova realidade e para as novas demandas corporativas, uma vez que conselhos e diretorias sem diversidade efetiva, e não apenas num ou noutro aspecto, não comprometidos com a sustentabilidade plena, puramente financeiros e pouco conscientes, tendem a ser melhorados.

Espera-se, e em muitos casos já se observa, investidores bastante conscientes e preocupados com todas essas questões, que se mostram ativos nas assembleias e nas reuniões, votando matérias e elegendo executivos de forma realmente inovadora, como apoio às diversas mudanças que o mundo corporativo e o planeta precisam.

As pressões por inclusão efetiva, plena e múltipla em conselhos e diretorias, fugindo de pilares únicos como os fundados apenas em capacitismo, idadismo, machismo, racismo e outras questões sociais sensíveis, estão chegando de forma mais firme e presente, alterando inclusive o perfil dos órgãos de gestão em muitas empresas.

Executivos estão sendo forçados a rever contratos e parcerias, mudar critérios de escolhas de parceiros, induzir melhorias em seus segmentos e mercados, inovar em seus modelos de negócio, muito além de apenas usar mais tecnologia ou automação, escolher melhor os terceirizados e treiná-los etc.

Esses movimentos são positivos e demonstram um novo momento e um novo contexto, mundial, social e corporativo, que tendem a ajudar na construção de um ambiente de negócios melhor e mais maduro, mais sustentável e mais consciente, mais seguro e mais moderno.

Acompanhemos com atenção a temporada de assembleias e de reuniões, e participemos ativamente daquelas em que estivermos diretamente envolvidos, ajudando as empresas nesse momento de transição, ajuste e evolução.

Leonardo Barém Leite é sócio-sênior do escritório Almeida Advogados e é árbitro corporativo.

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