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Com debates cancelados e protagonismo das redes sociais, TV perde espaço nas eleições

Com debates cancelados e protagonismo das redes sociais, TV perde espaço nas eleições

FONTE: HUFFPOST

11/10/2020

Com debates cancelados e protagonismo das redes sociais, TV perde espaço nas eleições

Neste cenário, campanha municipal se torna mais difícil para candidatos pouco conhecidos, avaliam especialistas.

By Grasielle Castro

Os candidatos em São Paulo que apostavam na televisão para se tornarem mais conhecidos tiveram suas expectativas frustradas com o cancelamento dos debates eleitorais por grande parte das emissoras. Com pouca possibilidade de eventos na rua, por causa da pandemia do novo coronavírus, sobrou-lhes o horário eleitoral gratuito e a briga por espaço nas redes sociais. Para especialistas ouvidos pelo HuffPost, a disputa ficou mais difícil para os pouco populares. 

Isso porque os debates são oportunidades para os candidatos convencerem os indecisos, segundo Maurício Moura, fundador do Instituto Idea Big Data. Autor do livro A eleição disruptiva: Por que Bolsonaro venceu, Moura destaca que as pesquisas espontâneas em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo têm mostrado que boa parte dos eleitores não sabe em quem vai votar. E neste cenário, os debates são mais relevantes. 

Essa diferença entre a quantidade de indecisos é, na avaliação dele, o que faria com que os debates aqui fossem mais relevantes do que estão sendo nos Estados Unidos, onde há campanha para eleições presidenciais. “O debate é relevante quando os indecisos assistem e mudam de ideia por causa do que viram. Em um contexto em que há poucos indecisos, pouca gente vai mudar de ideia, como é o caso dos EUA hoje”, diz. 

Lá, o índice de indecisos está em torno de 5 a 8 pontos percentuais. “Nos Estados Unidos, nos anos 1990, nesse mesmo período, a margem era de 25 a 30 pontos percentuais de pessoas que não sabiam em quem votar. Então os debates estão contando muito pouco porque são poucos os indecisos e geralmente eles e os que podem mudar de voto são os menos interessados em política”. diz. O principal desafio para os candidatos lá é fazer com que os eleitores votem.

Já no Brasil, há uma característica bem diferente de outras democracias na formulação dos debates. Aqui, cada emissora faz o seu, enquanto o comum fora do país é a formação de um pool entre as emissoras e todas transmitem o mesmo debate ao mesmo tempo. “A importância é maior porque o eleitor não tem a opção de mudar de canal. Aqui não, aqui tem debates que têm uma audiência grande e debates com audiência ínfimas – debates tarde da noite, em audiências historicamente pequenas. Esses debates fazem pouca diferença”, ressalta.

Debate da Band em São Paulo, o primeiro e único entre os candidatos à prefeitura...REPRODUÇÃO/YOUTUBE
Debate da Band em São Paulo, o primeiro e único entre os candidatos à prefeitura em 2020.

Ainda assim, Moura acrescenta o debate da Band, que ocorreu em São Paulo, foi útil para os candidatos usarem inserções nas redes sociais e para se tornarem mais conhecidos. “Certamente perde não ter debate, mesmo com muitos candidatos – o que encurta o tempo de cada um para debater e apresentar suas ideias. É melhor do que não ter. Não ter é sempre o pior cenário. E acho que estamos nesse cenário, o que ajuda quem já é conhecido.”

Há expectativa se os debates vão voltar no segundo turno, e emissoras já demonstraram interesse em realizar. Um dos entraves para os debates nesta fase da campanha é a regra eleitoral e o número alto de candidatos. A legislação determina que devem ter participação assegurada todos os candidatos cujos partidos tenham elegido ao menos cinco representantes na Câmara dos Deputados. O único debate que ocorreu em São Paulo, o da Band, contou com 11 candidatos.

Pandemia e redes sociais

Como o HuffPost já mostrou em outras reportagens, o contexto de pandemia deu ainda mais força para as redes sociais e tornou o cenário mais difícil para quem não é popular. “A campanha municipal, que geralmente é de muito corpo a corpo, eleitores muito próximos, está com mais limitações. Claro que está tendo evento na rua, mas não tem aglomeração. Basicamente o mundo digital ganhou muito mais tempo e recurso nas campanhas. E isso é um fenômeno global.” 

Moura ressalta que as pessoas continuam se relacionando mais com o celular do que com a TV aberta. “Uma coisa bacana do horário eleitoral é que circulou no WhatsApp antes do programa e a campanha se passa cada vez mais no celular. No caso do horário eleitoral, como os vídeos vão parar nas redes sociais, ter pouco tempo não é um problema.

Ao HuffPost, o presidente da Comissão de Estudos em Direito Político e Eleitoral e diretor do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Fernando Neisser afirmou que, com as restrições para propaganda impostas nas últimas minirreformas eleitorais, quem se beneficiou foram as pessoas que fizeram propaganda quando podia, quando havia dinheiro ou que são conhecidas do público ― o que é o caso de Celso Russomanno, que lidera as pesquisas para a prefeitura em São Paulo. 

Para ele, em uma campanha curta, sem debates e em que a arena é principalmente o meio digital, os candidatos mais conhecidos têm menos chance de perder o apoio e os menos conhecidos têm poucas chances de crescer. “Esse efeito [de redução da campanha] tem sido bastante criticado na literatura internacional porque ele cria o que a chama de ‘profecia autorrealizável’.”

https://www.huffpostbrasil.com/entry/debates-cancelados-eleicoes_br_5f80f1c4c5b62f97bac2af6e

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