[ editar artigo]

É certo fechar ruas para lazer?

FONTE: PORTAL ESTADÃO

28 de setembro de 2015

Rafael Arbex/Estadão

 

Ao inaugurar a ciclovia da Avenida Bernardino de Campos, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT) afirmou que a proposta de fechar grandes vias para veículos nos fins de semana será uma 'política pública permanente'. O objetivo, segundo ele, é ampliar as áreas de lazer na cidade. 

Para Valter Caldana, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie, qualquer iniciativa que leve à reocupação da cidade pelo cidadão é bem-vinda. Para o advogado Adilson Abreu Dallari, professor de Direito Urbanístico dos cursos de pós-graduação da Puc/SP e presidente da Comissão de Estudos de Urbanismo e Mobilidade do IASP, o fechamento das vias públicas é uma maneira de mascarar a ineficiência em relação à disponibilidade de verdadeiros espaços de lazer.

E você? Concorda com o fechamento de ruas para ampliar o lazer? Comente!

 Adilson Abreu Dallari
Segregação do espaço
ADILSON ABREU DALLARI
Advogado

A rua é pública!

28 de setembro de 2015 | 14:20
 

Povos de todo o mundo descobriram a urbis: chegou o urban age. Desde 2010, mais de 50% da população mundial passou a viver em cidades. Preparando-se para isso, importantes cidades do mundo começaram a rediscutir seus modelos de urbanização mais de 20 anos antes, visto que se mostravam inadequados para esta nova realidade.

Por aqui, no entanto, por motivos tantos e tão conhecidos, não se deu a devida importância sequer para o fato de que ultrapassamos esta marca 40 anos antes. Desde 1969 nossa população é mais urbana do que rural. Hoje somos 85% da população morando nas cidades, que óbvio, estão em colapso.

Um leitor menos atento imaginaria logo que, então, esse colapso se deve ao excesso de pessoas. Engana-se. Na verdade, esse colapso não se dá por excesso de pessoas, como poderia parecer, mas por ineficiência e inadequação do modelo de urbanização.

Nos últimos trinta anos, ao não se preparar adequadamente e ainda insistir em manter vivo, mesmo que agonizante, o modelo de urbanização caro, injusto e segregador do século XX, São Paulo cometeu grande erro. Por isso se vê hoje acuada, obrigada a enorme esforço coletivo e ao abandono abrupto de sua zona de conforto, ainda que esta esteja claramente desconfortável. 

A cidade mudou, programas e necessidades se atualizam diariamente. A sociedade quer mais e admira, deseja e requer outra cidade, novas qualidades, outros espaços urbanos e prioridades.

Se observa, então, sobretudo em uma considerável parcela formadora de opinião, manifestações de desejo por soluções urbanas criativas e radicais, respostas estrangeiras para esta nova cidade. Em outra, uma enorme sensação de traição e repulsa.

A cidade do entre rios foi condicionada a olhar apenas para si. Por isso vem descobrindo as bicicletas via Amsterdã e não via Embu Guaçu. As faixas de ônibus via Paris, não via Cidade Tiradentes.

Este embate exige a lembrança do enorme conjunto de soluções já propostas, debatidas, anunciadas que, contraditoriamente, não foram adiante. 

Traz também, para o leitor atento, a observação de que na verdade estas transformações já estão em andamento há bem mais de uma década, mas têm se dado da periferia para o centro, num alerta agora indisfarçável da necessidade de mudança do modelo de construção da cidade, esta mesma que entrou em colapso. Que se observe a idade dos 'pixos', do hip hop, dos poetas e trovadores urbanos e dos movimentos de luta por moradia.

Uma destas falsas-novas iniciativas é o fechamento de vias aos domingos, sendo Paulista e Minhocão as mais famosas. São Paulo já teve, com sucesso, o projeto "Ruas de Lazer".

Que fique claro: tudo que leve à reocupação da cidade pelo cidadão, a qualquer tempo, é muito bem-vindo. Tudo o que leve à mudança de protagonista nesta cena, da máquina ao Homem, será benéfico. 

Não se pode crer, entretanto, que isto signifique resolver o problema da desqualificação dos espaços públicos existentes e da necessidade de criação de muitos outros. O fechamento é elemento simbólico e didático necessário nesta fase de aprendizagem e formulação participativa do novo modelo de cidade, que deve ser diversa e inclusiva, lembrando que a soma de preto com branco dá milhões de tons e cores, e não xadrez. 

VALTER CALDANA, 

diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie

http://sao-paulo.estadao.com.br/discute/e-certo-fechar-ruas-para-lazer,246

 

TAGS
Ler matéria completa
Indicados para você