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Fim da moda, prejuízo e pandemia: como Grow, ex-Yellow, foi do boom à lona

Fim da moda, prejuízo e pandemia: como Grow, ex-Yellow, foi do boom à lona

FONTE: EXAME

Fim da moda, prejuízo e pandemia: como Grow, ex-Yellow, foi do boom à lona

A Grow, vinda da fusão de Yellow e Grin, pediu recuperação judicial após meses de crise. O pedido marca a queda do modelo dos outrora louvados patinetes

Por Carolina Riveira, Leo Branco, Carolina Ingizza

Publicado em: 29/07/2020

A pandemia ampliou o que já estava ruim, e a temporada de crises da empresa de micromobilidade Grow atinge agora um de seus piores momentos. A companhia, nascida da fusão entre a brasileira Yellow e a mexicana Grin no começo de 2019, pediu recuperação judicial nesta terça-feira, 28, conforme informação confirmada pela EXAME.

As dívidas somam cerca de 38 milhões de reais. As principais razões para a crise, segundo a empresa, são a maior regulação, aumento da concorrência, diminuição das margens de lucro e necessidade constante de atualização dos patinetes e bicicletas. Com a pandemia, que paralisou os serviços de compartilhamento, o colapso do negócio aconteceu.

Yellow e Grin pedem que os passivos e ativos das duas empresas sejam considerados um só, uma vez que no Grupo Grow haveria coincidência de diretores e composição acionária, atuação conjunta no mercado, compartilhamento de funcionários, bens e serviços, além de fonte única de receitas.

EXAME teve acesso à lista de credores da companhia, composta por ex-funcionários e fornecedores. São pouco mais de 8 milhões de reais em dívidas na classe I, isto é, direitos trabalhistas não-pagos após demissão de ex-funcionários, somados os passivos das duas companhias.

Na classe III, de empresas fornecedoras, são cerca de 30 milhões de reais em dívidas. O maior credor é a fabricante de bicicletas Caloi Norte, com 15,4 milhões de reais a receber. Na classe IV, de microempresas ou empresas de pequeno porte, a dívida soma pouco mais de 234.000 reais.

No pedido, Grin e Yellow pedem a suspenção de todas as ações de credores sujeitos, de despejo e de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho visando a reintegração de empregados demitidos.

O processo tramita na 1ª vara de falências do estado de São Paulo e está com o juiz Tiago Limongi. “Neste momento, o magistrado analisará a regularidade dos documentos que acompanham o pedido e, se estiverem formalmente em ordem, deferirá o processamento da recuperação judicial, bem como a suspensão as ações e execuções contra as empresas”, diz Leonardo Adriano Ribeiro Dias, especialista em falências e recuperações judiciais.

Depois dessa fase, as empresas terão até 60 dias para apresentar um plano de recuperação aos seus credores.

Ondas de demissões

O último desdobramento da crise veio em junho, quando a empresa anunciou a demissão de “grande parte da equipe operacional e corporativa no Brasil”.

Antes do coronavírus, a Grow já vinha de sucessivas ondas de demissão e encerramento de operações. Em janeiro, muito antes de qualquer possibilidade de quarentena começar, a empresa já havia encerrado as operações em 14 cidades no Brasil. Sobraram apenas São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR).

A locação de bicicletas via aplicativo da Yellow também foi paralisada por tempo indeterminado, restando apenas os patinetes. Na ocasião, mais funcionários já haviam sido demitidos.

Em março, a startup foi comprada pelo fundo Mountain Nazca, dono do Peixe Urbano. O novo presidente, Roberto Álvarez Cadavieco, disse no comunicado anunciando a operação à época que “a era do crescimento a qualquer custo acabou” e que a Grow tinha o plano de ser “a primeira empresa de micromobilidade rentável do mundo.”

Desavenças Brasil-México

Na ocasião das demissões de junho, um dos rumores que circulou no mercado era a possibilidade de a Grow encerrar a operação no Brasil. O mercado mais forte da companhia é o México, terra-natal da Grin. Segundo o perfil da empresa no LinkedIn, há atualmente pouco mais de 180 funcionários com perfil vinculado à empresa e residência no Brasil. Em todo o mundo, são cerca de 400 empregados.

No Brasil, foi a brasileira Yellow, criada em 2017, que começou a implementar o modelo de micromobilidade com patinetes elétricas e bicicletas. O formato era até então menos presente fora das vias principais de São Paulo e restrito às bicicletas alugadas com marcas de bancos — como as do Itaú, operadas pela Tembici.

Além dos desafios financeiros, algumas desavenças internas entre os profissionais advindos de Grin e Yellow foram recorrentes ao longo da trajetória.

Após a fusão com a Grin, a marca Yellow foi encerrada e os equipamentos com suas cores amarelas gradualmente substituídos. Já a marca Grin seguiu sendo usada no México e em outros países da América Latina.

A briga entre os fundadores de Yellow e Grin teria sido, inclusive, um dos motivos que afastou um potencial aporte de até 150 milhões de reais do fundo de investimentos Softbank.

No auge do otimismo com os patinetes, a Yellow iniciou uma expansão sem precedentes para o modelo de micromobilidade, chegando a estar presente em mais de 10 cidades brasileiras e incluindo em bairros mais afastados dos centros. Mas o modelo foi colocado em xeque diante dos altos custos.

Todo o segmento de micromobilidade também sofre para se tornar rentável. Um dos principais desafios no modelo de negócio da Grow é a depredação de patinetes e bicicletas. A empresa não usa estações fixas para os equipamentos, que podem ser deixados em um perímetro mais amplo, o que encarece a operação.

Na linha de tentar baratear os gastos, a Grow havia lançado no começo deste ano o Grin4U, sistema de aluguel individual e mensal dos equipamentos.

O formato de patinetes e bicicletas espalhados pela cidade, apesar da febre dos últimos anos, ainda não se provou financeiramente viável. A Tembici, que gerencia as bicicletas do Itaú e usa estações fixas, recebeu um aporte de 47 milhões de dólares, anunciado em junho, mesmo em meio à pandemia.

Em entrevista anterior à EXAME, Scott Sobel, sócio-diretor do Valor Capital, um dos fundos investidores da Tembici, afirmou que a principal vantagem que o modelo da Tembici tem em relação aos concorrentes é o uso das estações fixas para retirar e deixar as bicicletas. O fundo acredita que esse modelo prevaleceu em relação ao utilizado pela Grow.

Nos últimos dois anos, além de Yellow e Grin, surgiram nas cidades brasileiras uma série de novos concorrentes, como a americana Lime, que deixou o Brasil em janeiro deste ano, seis meses após chegar. A gigante Uber também tentou a sorte por aqui ao trazer suas patinetes ao Brasil em março deste ano, mas deixou o país menos de quatro meses depois, em meio à crise do coronavírus e enxugamento das operações globais. As operações de patinentes da Uber foram, inclusive, adquiridas globalmente pela Lime em maio.

https://exame.com/pme/fim-da-moda-prejuizo-e-pandemia-como-grow-ex-yellow-foi-do-boom-a-lona/

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