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Lava-Jato dá espaço a novos players

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Por Mario Henrique Viana | Para o Valor, de São Paulo

Com incertezas sobre o futuro das principais construtoras brasileiras, envolvidas no escândalo de corrupção que levou à cadeia altos executivos e empresários do setor, especula-se sobre como, quando e por quem serão construídas as grandes obras de infra-estrutura que o País precisa.

A ideia de que algumas empresas chinesas poderiam ocupar este espaço revela diferentes opiniões de especialistas em comércio internacional. Para o diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro das Relações Exteriores e atual integrante do conselho da Odebrecht - uma das empresas que tem seu presidente na cadeia - trata-se de "um absurdo que só tem inconvenientes".

Ricupero é dos que defendem a preservação dos ativos das empresas e a punição às pessoas jurídicas apenas com multas. Neste cenário, as consequências das investigações da Lava-Jato não chegariam a prejudicar os negócios. "Seria criminoso liquidar este patrimônio que são as empresas de construção civil. Este é o único setor em que o Brasil exporta serviços, é um setor estratégico".

Outro fator que pode inibir o investimento estrangeiro, na visão de Ricupero é o cenário de instabilidade econômica que o País vive. "Sou cético quanto à chegada de investimento externo em geral, nesse momento de inflação e instabilidade".

Seu colega de Itamaraty, Roberto Abdenur, ex-embaixador na China e atual conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, CEBRI, considera o investimento estrangeiro bem vindo. Na sua opinião, existe uma tendência de encolhimento das grandes empreiteiras, não só como decorrência da Lava-Jato, mas pela associação de fatores técnicos como a taxa de juros e a dificuldade de captar recursos no exterior. "Temos que suprir lacunas em infraestrutura, somos um mercado muito interessante e, mesmo com todas as nossas dificuldades, faz sentido a chegada do investimento chinês".

"O Brasil é especialmente atraente para o investimento chinês", afirma o economista e advogado Francisco Petros, especialista em direito societário do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros. Em sua avaliação, a impossibilidade de a China expandir o comércio internacional no continente asiático e a presença de matérias-primas estratégicas na América Latina são fatores de atração do investimento chinês. "A Lava-Jato em si não é mais importante que o tamanho do mercado associado à presença de petróleo, gás, metais e todo o agronegócio", afirma Petros. Segundo ele, "tudo o que for infraestrutura vai interessar ao capital chinês, desde que o País retome o crescimento".

Para o consultor Antonio Napole, diretor presidente do escritório brasileiro da consultoria de estratégia Kaiser Associates, as oportunidades decorrentes da Lava-Jato serão consolidadas por meio de aquisições e fusões. "É mais fácil comprar uma empresa no Brasil do que montar uma operação da estaca zero, sobretudo numa conjuntura em que, por diversos motivos, as empresas estejam desvalorizadas. Poderemos ver alguns casos assim envolvendo tanto as construtoras médias, quanto as maiores".

O advogado Ernesto Tzirulnik, do escritório Etad, considera possível a chegada de novos players. "A Constituição permite, desde que se cumpra as exigências em cada caso. Certamente uma empresa estrangeira terá dificuldades materiais e culturais para operar no Brasil no ramo de engenharia". Tzilrunik, como Ricupero, defende a manutenção das empresas e a punição das pessoas. "É lamentável que o Brasil abra mão desta fatia diferenciada do seu setor produtivo". 

http://www.valor.com.br/brasil/4244356/lava-jato-da-espaco-novos-players

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